Dependência química preocupa médicos
Data:
09/04/2006
O alcoolismo - doença caracterizada pela dependência física ou psicológica de bebidas alcoólicas - foi um dos temas mais discutidos na semana em que várias atividades lembraram o Dia Mundial da Saúde, comemorado na última sexta-feira, 07. O assunto se torna mais preocupante, em virtude da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) ao entrevistar 48.155 jovens de todo o país, na faixa etária até os 18 anos, ouviu de 81% deles que já haviam ter experimentado algum tipo de bebida alcoólica. Outra pesquisa, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), apurou que 34,8% dos estudantes brasileiros, dos Ensinos Fundamental e Médio, consomem álcool.
O psiquiatra Marcos José Andrade Simões, médico especializado em dependência química, afirmou que o alcoolismo é uma doença que desenvolve o mecanismo de tolerância do álcool, levando o individuo a beber muito mais até se embriagar. O alcoólatra crônico, por exemplo, ingere muita bebida em decorrência do efeito das enzimas, do metabolismo do álcool serem mais rápidos em seu organismo do que naquelas pessoas que não bebem. "Se este individuo pára de beber, quando retorna ao consumo volta de onde parou, a tolerância fica aumentada", observou.
O que é mais grave, se pára por conta própria, a pessoa apresenta em 48h sintomas de abstinência, como insônia, pesadelos, tremores, diarréia e delírios (alucinações). No entanto, se volta a ingerir bebida alcoólica os sintomas relatados desaparecem. "Esse tipo de paciente não se trata sem o uso de remédios, tem que tomar os medicamentos necessários para evitar o quadro. Nessa fase do alcoolismo a única alternativa é o tratamento em clínica, internado, para que seja feita a desintoxicação alcoólica", afirmou Marcos Andrade, que afirmou que, uma vez alcoólatra, sempre alcoólatra.
No caso dos adolescentes e jovens que tomam bebidas alcoólicas e não apresentam sintomas de abstinência - dor de cabeça, mal-estar, não fica tonto, Marcos Andrade garantiu que, mesmo assim, existe uma pré-disposição destes indivíduos se tornarem dependentes. "O alcoolismo é uma doença progressiva, incurável e com terminação fatal", setenciou, acrescentando, que chegou inclusive a cuidar de um paciente de oito anos de idade que tinha cirrose. Era um garoto que morava no mercado central da cidade.
Estágios do alcoolismo - Marcos Andrade afirmou que a doença do alcoolismo possui três fases básicas. A primeira é a aguda, quando o individuo consome a bebida alcoólica de vez em quando, exporadicamente por ficar alegre, o que é produzido pelo efeito do álcool. A fase crônica, é aquela em que a pessoa já apresenta problemas no fígado, no estomago. São as chamadas doenças orgânicas - esteatose, hepática (gordura no fígado), gastrite, perda de peso, insônia e irritabilidade.
A terceira e a mais grave fase da doença, observou Marcos Andrade, é a psicose alcoólica, quando a solução é o internamento do paciente para se submeter a tratamento. Chegando a este estágio, a pessoa fala sozinha, tem alucinações, pode cometer um suicídio sem ter consciência do que praticou. Fica totalmente fora da sanidade mental. Ele frisou ainda, que existem quatro tipos de psicoses alcoólicas: o delirium tremens, a paranóia, o delírio de ciúmes (pensa que está sendo traído), e finalmente, as psicoses korsakof e wernek, que são terminações fatais em que o individuo vem a óbito.
Passos para a recuperação - O psiquiatra chama a atenção para o fato de que o consumo de bebida alcoólica - que atinge a 13% da população que é dependente - resulta em vários tipos de mortes, como atropelamentos, cirrose, AVC, afogamentos, acidentes de trânsito, entre outros. "A doença primária nesses casos é o alcoolismo", enfatizou. A doença tem aumentado também entre a população feminina, que tolera menos álcool que os homens devido a constituição física. A mulher tem mais gordura no organismo.
Relembrando o caso do garoto de oito anos que tinha cirrose, Marcos Andrade afirmou que se existe na família pai, mãe, tios ou outros parentes alcoólatras é preciso evitar dar bebida as crianças, que podem ter pré-disposição para o alcoolismo. Ele concluiu, relatando que entre as alternativas para a pessoa se recuperar do alcoolismo estão: aceitar que é dependente; que quer se submeter a tratamento; seguir todas as orientações e tratamento do médico; freqüentar as reuniões de grupos de Alcoólicos Anônimos (AA); e finalmente, ter fé espiritual.
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