Aracaju, 04/09/2010
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 situe-se: 04 de Setembro de 2010,  Sábado

César Borges defende a CPI da Petrobras
Data: 02/04/2006

Habacuque Villacorte

O entrevistado deste domingo é um nordestino de pulso forte que se destaca na Bahia por também ser opositor ao projeto do Ministério da Integração Nacional que visa transpor parte das águas do rio São Francisco para o Nordeste Setentrional. A reportagem do Correio de Sergipe ouviu no início da noite da última sexta-feira, o senador da República César Borges (PFL) que, em uma entrevista polêmica, fez revelações com o que vem sendo propagado pelo ex-prefeito de Aracaju, Marcelo Déda (PT). Segundo o pefelista existe sim perseguição política, por parte do governo federal, ao governador João Alves Filho (PFL), sendo que o PT sergipano também tem uma participação decisiva nessa história. Além disso, Borges é um grande defensor que o Congresso Nacional aprove a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os contratos efetuados pela Petrobras, inclusive na gestão do ex-presidente da estatal e ex-senador por Sergipe, José Eduardo Dutra (PT). Confira a seguir, e na íntegra, a entrevista exclusiva concedida pelo senador baiano:

Habacuque Villacorte

CORREIO DE SERGIPE: Iniciando a entrevista, o senhor é destacado em toda a Bahia como um dos maiores opositores da transposição do rio São Francisco. Qual a sua avaliação sobre esse projeto do governo federal?
CÉSAR BORGES: Em primeiro lugar, o rio São Francisco precisa de um verdadeiro projeto de revitalização de longo prazo. Isso é o mais importante agora. Além disso, eu considero esse projeto totalmente equivocado porque ele visa exclusivamente a irrigação no seu eixo norte. E não há viabilidade de se fazer irrigação com uma água tão cara. Seria muito mais coerente se essa água fosse transposta para o abastecimento humano. Aí seria algo que poderia ser estudado. É um projeto que já nasce errado. É preciso conscientizar a todos que é fundamental revitalizar o Velho Chico, para só depois discutir a transposição de água.

CS: Em recente visita a Sergipe, o presidente Lula criticou publicamente o deputado estadual Augusto Bezerra (PFL) pela sua luta contra a transposição. Logo em seguida, o petista foi à Bahia. Durante essa visita o senhor foi criticado também?
CB: Em minha opinião, o presidente Lula está totalmente equivocado quando ele tenta defender esse projeto de transposição, e fica pior, quando ele ataca os defensores da revitalização. Deixo bem claro que na cabeça esse projeto só tem um objetivo: fazer caixa para a campanha política que se aproxima. Eu não vejo outra razão para se ter tanto interesse em realizar um projeto da forma como ele está sendo proposto. O presidente Lula tem sido muito perverso com o Nordeste brasileiro como um todo, e de forma especial com Sergipe e Bahia. O governo federal não tem investido em melhorias nas nossas ferrovias e rodovias, nos portos e ele fica devendo muito aos dois Estados. Lula não investe em infra-estrutura para desenvolver a Bahia, que cresce atualmente graças aos esforços do governo do Estado, mas faltam investimentos federais.

CS: O governador João Alves acusa o governo federal e seus opositores em Sergipe de perseguição política, por dois motivos: por ele ser opositor à transposição e por ser o maior adversário do "compadre" do presidente Lula. O senhor, que tem a sua vida parlamentar em Brasília (DF), já ouviu rumores sobre tais ações?
CB: O presidente Lula tem dado um tratamento equivocado e incorreto ao governador João Alves, que é um profundo conhecedor do semi-árido brasileiro e do próprio rio São Francisco. O governador de Sergipe está cheio de razões em ser contrário à transposição. Eu estou do lado de João Alves e o considero como um guerreiro em defesa do Velho Chico. Tenho acompanhado de perto o problema de Sergipe, mais especificamente sobre o empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a construção da ponte que vai ligar os municípios de Aracaju e Barra dos Coqueiros. A única razão para que a documentação não tenha sido liberada e o empréstimo concedido para a construção de uma ponte que vai beneficiar muita gente é uma perseguição odiosa e inaceitável do presidente Lula e do PT sergipano ao governador João Alves.

CS: O senhor então acompanha de perto essa perseguição do governo federal a Sergipe?
CB: Eu tenho visto tudo sim e tenho apoiado a luta do governador João Alves. Não só eu, mas toda a bancada do PFL no Senado Federal, em particular, o senador Agripino Maia (RN). Estamos solidários ao governador e ao povo tão sofrido de Sergipe.

CS: Mudando um pouco o rumo da entrevista, como o senhor avaliou a saída de Antônio Palocci do Ministério da Fazenda?
CB: Eu acho que ele saiu até tarde demais. Nós verificamos na CPI dos Bingos que o ex-ministro Palocci fazia parte daquela quadrilha de Ribeirão Preto e ele mentiu diante do Congresso Nacional. Essa é uma questão de ética e moralidade, e não se pode desconsiderar isso pelo fato dele fazer uma boa ou má política econômica para o País. Nesse aspecto eu acho até que ele pecou muito, elevando os juros, aumentando a carga de tributos e não deixou o Brasil crescer.

CS: O fato de ele adiar o seu depoimento que seria dado a Polícia Federal essa semana, não deixa transparecer que ele tem algo importante a esconder?
CB: Eu tenho certeza mesmo é de que ele faz parte daquele grupo de Ribeirão Preto, também composto por Rogério Burati e Wladimir Poleto, além de outros empresários que trabalharam com o ex-ministro e faziam tráfico de influência em Brasília. Isso, ele (Palocci) escondeu e negou, mas é algo que está comprovado. Em segundo lugar, a questão da quebra do sigilo bancário é algo gravíssimo. Ele mentiu ao Congresso quando disse que nunca teria ido aquela casa, mas ficou provado que ele foi sim. O pior é que ele afrontou as instituições republicanas e constitucionais, se utilizando do poder para quebrar o sigilo bancário de um pobre cidadão brasileiro que "pecou" em apenas dizer a verdade.

CS: Mas o que dizer especificamente sobre a política econômica adotada pelo ex-ministro Palocci? 
CB: Eu sempre fui um grande crítico dessa política porque para se debelar a inflação e mantê-la em níveis baixos, o ex-ministro também matou o crescimento do Brasil. Enquanto isso, o mundo inteiro cresce. Os juros estão elevados, a carga tributária é altíssima e o governo federal não investe onde deveria. Pelo contrário, o presidente aumenta gastos com telefones, viagens, diárias, aviões e excesso de cargos de confiança, recheados de petistas. Eu não posso aprovar uma política econômica como essas.

CS: Outro questionamento diz respeito ao investimento feito pelo governo federal (cerca de US$ 10 milhões) para que um brasileiro participasse desta missão espacial. O que o senhor achou? Concorda?
CB: Trata-se de um fato meramente de merchandising! Porque, do ponto de vista do avanço para a ciência e tecnologia brasileira, não vai significar absolutamente nada. É sim mais uma ação do governo da propaganda. Eu afirmo que esse governo faz a cleptomania administrativa. O presidente Lula teve a audácia de dizer que o aeroporto de Salvador foi feito por ele, mas a obra ficou pronta ainda em 2002, com boa parte de recursos estaduais.

CS: E o que dizer da deputada petista que "dançou" no plenário da Câmara Federal para comemorar a não cassação de outro parlamentar?
CB: É lamentável. Aquilo é mais ou menos o retrato fiel, ou seja, o emblema do que o Partido dos Trabalhadores fez com a política nacional e com os políticos brasileiros. Essa é a forma petista de governar.

CS: Como o senhor recebeu o relatório divulgado pela CPI dos Correios?
CB: É um relatório, pelo menos, razoável, já que ele não é excelente. É bem verdade também que o presidente Lula e seu filho poderiam ter sido envolvidos com mais intensidade. A empresa do "Lulinha" ganhou R$ 15 milhões e o relatório não tocou nesse assunto.

CS: Falando em CPI, o que comentar sobre a liminar concedida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) impedindo que fosse realizada a acareação entre Paulo Okamotto (presidente do Sebrae) e o ex-petista e economista Paulo de Tarso Venceslau?
CB: Eu lamento bastante e entendo que o Poder Judiciário tem interferido muito nas ações do Legislativo, e isso não é bom para a democracia brasileira. Mas a Justiça existe para ser respeitada e, apesar de não concordar, eu respeito à decisão do STF.

CS: O senhor também costuma fazer duras críticas a Petrobras, seja na Bahia ou no Senado Federal. Por quê?
CB: Eu critico o uso político da Petrobras, uma estatal que cuida de recursos públicos e privados. Lamentavelmente, desde o início do governo Lula (coincidentemente o princípio da gestão de José Eduardo Dutra na empresa), a Petrobras vem sendo utilizada para ajudar candidatos do PT para vencerem as eleições municipais e que, atualmente, ajuda a vender a propaganda enganosa do governo Lula. Agora, eles vão comemorar a auto-suficiência, que é algo que não se deve ao governo do PT. Pelo contrário, o ritmo de produção acabou sendo diminuído. É um trabalho desenvolvido por outros governos anteriores e vão se gastar fortunas para divulgar essa falsa verdade, em um ano eleitoral. É por isso e outras coisas que eu defendo a CPI da Petrobras.

CS: CPI da Petrobras? Mas isso pode atingir o ex-presidente da estatal José Eduardo Dutra? Os desvios de recursos também chegaram a Bahia?
CB: Até porque o Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou desvios e irregularidades muitos em contratos firmados pela Petrobras. Inclusive na gestão do ex-presidente José Eduardo Dutra. Também não tenho dúvidas que existiu sim favorecimentos na Bahia. Isso aconteceu muito em 2004, durante as eleições municipais. A Petrobras interferiu bastante e financiou festas de emancipação de municípios do interior do Estado, algo que não tem nenhuma vinculação com a estatal. Esse favorecimento às prefeituras aliadas continua acontecendo, sem contar que também existe a questão da GDK, a empresa baiana que dava presentes tipo "Land Rover" para pessoas importantes do PT e fazer influência nas assinaturas de contratos da Petrobras. Isso está inserido no relatório final da CPI dos Correios. 

CS: Após a manutenção da regra da verticalização, muitas discussões entre PFL e PSDB, que devem ficar juntos no âmbito nacional, estão se desenrolando nos Estados brasileiros. Comenta-se que existem dificuldades de composições na Bahia e em Sergipe. O senhor confirma a informação?
CB: A dificuldades existem e são naturais porque cada Estado possui a sua peculiaridade. O mais importante agora é que o Brasil seja colocado em 1º lugar e os interesses nacionais vão acabar prevalecendo sobre os regionais. Lá em cima, está praticamente definida a aliança entre os dois partidos. Nós também precisamos resolver essas situações nos Estados.

CS: Para finalizar a entrevista, tem provimento a denúncia de que o presidente Lula estaria intervindo na decisão do PMDB de lançar ou não candidatura própria para a presidência da República?
CB: Com certeza! Isso é algo totalmente inaceitável, mas o planalto, com a ajuda de algumas lideranças importantes do PMDB, vem tentando sabotar a livre escolha da candidatura própria, que seria muito melhor para o Brasil do que apoiar a reeleição de Lula. O nome de Alckmin é o melhor nome para assumir a Presidência da República, até pela sua experiência como governador do Estado mais importante da Federação. É um homem que traz na sua vida pública, fortes exemplos de ética e moralidade, apesar de ter ocupado cargos políticos, como vereador, prefeito, deputado estadual e federal, vice-governador e governador. Além disso, ele tem competência administrativa comprovada, ou seja, algo que falta muito na gestão de Lula, que só não foi cassado até agora, porque usa de pressão política e econômica para cooptar deputados de outros partidos. 

Conheça um pouco mais sobre César Borges

César Augusto Rabello Borges nasceu em Salvador, no dia 21 de novembro em 1948. Em Jequié, terra natal dos seus pais (Waldomiro e Dona Juju), passou a infância e morou até os 10 anos. Aluno aplicado estudou em Salvador nos colégios Militar e Marista, onde aprendeu lições de disciplina e fortaleceu a sua formação religiosa. Casado com Tércia, César Borges é pai de seis filhos: Adriano, Ricardo e Thiago; Waldomiro Neto, César Filho e Bárbara. Em 1971, formou-se em Engenharia Civil, na Universidade Federal da Bahia. Foi professor universitário com apenas 27 anos. Consultor de Engenharia, empresário e presidente da Junta Comercial do Estado, seguiu os passos da família e entrou para a política.
Fazer política entre os melhores na Bahia (Antonio Carlos Magalhães e Luís Eduardo Magalhães) era uma bandeira muito próxima da sua tradição familiar em Jequié, do avô e do pai, que foram prefeitos de Jequié e sempre pautaram a ação política pela competência, honestidade e seriedade. Na Assembléia Legislativa, César Borges pautou seus dois mandatos (1986-1990) pela defesa dos interesses de sua região e do povo da Bahia. Disputou as duas eleições sempre em parceria com o amigo Luís Eduardo Magalhães, sendo ele para a Assembléia e Luís Eduardo para a Câmara Federal.
Em 1990, eleito governador no primeiro turno, ACM convidou César Borges para ocupar a Secretaria de Recursos Hídricos, Saneamento e Habitação. Em 1998, Borges assumiu o Governo da Bahia, para continuar o trabalho de ACM e Paulo Souto. Em abril de 2002, desincompatibilizou-se do cargo de governador do estado para concorrer a uma das duas vagas da Bahia em disputa para o Senado, deixando com sucessor seu vice, Otto Alencar. César foi eleito senador com 2.731.596 votos, junto com seu companheiro de chapa, Antonio Carlos Magalhães, que obteve 2.995.559 votos.


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